Contrato de R$ 237 milhões da gestão Zema é suspenso após caso PCC explodir em Minas
Acordo com a Renapsi foi firmado ainda sob Romeu Zema e barrado após prisão de fundador da entidade em investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao PCC
Um contrato de R$ 237,6 milhões firmado pela gestão Romeu Zema com a Renapsi foi suspenso pelo governo de Minas Gerais após a prisão de Adair Antônio de Freitas Meira, apontado como fundador da entidade, em uma investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital, o PCC. O acordo, assinado em 17 de março de 2026, previa a execução do Programa Evolução Jovem, voltado à socioaprendizagem e à inclusão produtiva de estudantes da rede pública estadual.
A suspensão foi noticiada após a repercussão da Operação Contaminatio, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. A investigação mira o uso de empresas e entidades ligadas a Meira para movimentar recursos ilícitos associados a operadores financeiros da facção criminosa. A defesa do empresário nega de forma veemente qualquer irregularidade ou ligação com o PCC.
O caso amplia o desgaste político sobre contratos públicos ligados a Adair Meira. Nesta segunda-feira (11), a Fórum mostrou que a Fundação Pró-Cerrado, entidade ligada ao empresário, mantém contratos ativos que somam R$ 141.509.831,63 com o governo de Goiás, em acordos firmados entre 2021 e 2025.
Contrato da gestão Zema previa R$ 237,6 milhões à Renapsi
O Termo de Parceria 59/2026 foi celebrado entre o Estado de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, e a Rede Nacional de Aprendizagem, Promoção Social e Integração, a Renapsi, com interveniência da Secretaria de Estado de Educação.
O documento oficial informa que o objeto da parceria era apoiar uma política pública de socioaprendizagem e inclusão produtiva para estudantes da rede pública estadual de Minas Gerais no âmbito do Programa Evolução Jovem.
A cláusula quinta do termo estima o valor de R$ 237.600.000,00, a serem repassados conforme cronograma de desembolsos. A vigência prevista era de dois anos, contados a partir da publicação no Diário Oficial.
O contrato foi assinado em Belo Horizonte em 17 de março de 2026. A data coloca o acordo dentro da gestão Zema, embora o documento tenha sido firmado formalmente por representantes da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, da Secretaria de Estado de Educação e da Renapsi.
Zema entra no centro político do caso em Minas
A conexão de Romeu Zema com o caso está no contrato mineiro. Não há, nos documentos consultados, apontamento de participação direta do então governador nos fatos apurados pela Operação Contaminatio. O desgaste político decorre do fato de que o acordo milionário com a Renapsi foi firmado durante sua gestão e só foi suspenso após a prisão de Adair Meira ganhar repercussão nacional.
A Renapsi foi contratada para operacionalizar uma política pública de alto valor em uma área sensível: a inclusão produtiva de estudantes da rede estadual. A suspensão do contrato coloca sob pressão o discurso de eficiência administrativa associado por Zema à sua trajetória política.
O caso também reforça a discussão sobre filtros de conformidade em contratos públicos com entidades privadas e organizações sociais. A Fórum já mostrou como o avanço do crime organizado sobre estruturas econômicas e políticas virou tema central no debate eleitoral.
Caso PCC já havia atingido contratos em Goiás
Em Goiás, o foco não é a Renapsi, mas a Fundação Pró-Cerrado. Segundo a reportagem publicada pela Fórum, com base em dados oficiais e no UOL, a entidade ligada a Adair Meira mantém contratos ativos de R$ 141,5 milhões com o governo goiano.
Os acordos envolvem serviços terceirizados como apoio técnico especializado, motoristas, auxiliares administrativos e operadores de call center. A teia contratual inclui documentos firmados entre 2021 e 2025, além de aditivos que prorrogam serviços até 2026.
O caso mais emblemático citado na reportagem é o Contrato 039/2025, no valor de R$ 28.094.459,04, para fornecimento de mão de obra exclusiva de apoio técnico especializado de nível superior. A assinatura eletrônica ocorreu em 14 de novembro de 2025.
Quem é Adair Meira
Adair Antônio de Freitas Meira é empresário de Goiás, ligado à Fundação Pró-Cerrado e ao Sistema Sagres de Comunicação. Ele foi preso durante a Operação Contaminatio, deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo.
A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro associadas a operadores financeiros do PCC. Um dos eixos da apuração envolve a fintech 4TBank, apontada nas investigações como instrumento para movimentações financeiras de interesse da facção criminosa.
No caso goiano, a própria Fundação Pró-Cerrado exibe Meira em seu site institucional como diretor-secretário-geral e instituidor da organização nos anos 1990. Em Minas, a relação em apuração envolve a Renapsi, entidade que assinou o contrato de R$ 237,6 milhões com o governo estadual.
Renapsi e defesa negam irregularidades
A Renapsi afirma que não é alvo da investigação e que Adair Meira não ocupa cargos de gestão nem mantém vínculo administrativo com a organização.
A defesa de Meira nega qualquer ligação do empresário com o PCC. Os advogados sustentam que as acusações serão esclarecidas no processo e rejeitam a existência de irregularidades nas atividades atribuídas ao empresário.
A suspensão do contrato em Minas, porém, paralisa uma parceria de R$ 237,6 milhões firmada na gestão Zema e expõe a dimensão nacional da crise. Depois de alcançar contratos da Fundação Pró-Cerrado com o governo de Goiás, o caso agora atinge um acordo milionário da Renapsi com o governo mineiro.
Contrato milionário fica sob auditoria
Com a suspensão, o Programa Evolução Jovem fica travado até que o governo mineiro conclua a análise sobre a continuidade da parceria com a Renapsi.
O ponto central da crise é o uso de dinheiro público. Em Minas, são R$ 237,6 milhões previstos em contrato assinado sob Zema. Em Goiás, são R$ 141,5 milhões em contratos ativos da Fundação Pró-Cerrado, entidade ligada a Adair Meira, segundo a apuração publicada pela Fórum.
A Operação Contaminatio ainda está em andamento. Até aqui, a investigação mira suspeitas de lavagem de dinheiro e conexões financeiras com operadores do PCC. As defesas negam envolvimento com a facção e irregularidades nos contratos.
Fonte: Revista Forum



