Cada vez menos tabu: como é a praia de nudismo no Uruguai que tem se popularizado entre pessoas com mais de 40 anos

O ponto histórico é escolhido por turistas europeus, norte-americanos e argentinos

Cada vez menos tabu: como é a praia de nudismo no Uruguai que tem se popularizado entre pessoas com mais de 40 anos
Exequiel, de 45 anos, escolheu passar seus verões em Chihuahua há sete anos — Foto: Pilar Camacho / La Nación

A porta do hotel El Refugio se abre e seu proprietário, Ricardo Rodal, aparece nu. “Não sou fundamentalista; quando sinto frio, me visto ”, diz o hoteleiro uruguaio de 65 anos. Casais argentinos e alemães, a maioria nus, passeiam e tomam sol na varanda e no jardim de sua pousada naturista, uma das nove localizadas no balneário de Chihuahua. Essa cena se repete em grande escala na praia, onde até mesmo alguns vendedores ambulantes circulam sem roupa.

Chihuahua é uma espécie de mundo à parte no meio de Punta del Este. Uma praia de dois quilômetros de extensão com uma lagoa de água doce no meio, localizada entre o renomado resort Tío Tom e o condomínio fechado Ocean Park. Designada oficialmente como tal em 2000, é a segunda praia de nudismo mais antiga da região , perdendo apenas para a Praia do Pinho, em Balneário Camboriú (Santa Catarina, Brasil).

Nessa praia brasileira, em 2025, após décadas de nudismo, a prática foi proibida. Em Chihuahua, no entanto, o nudismo parece estar em plena expansão. No terreno acidentado ao longo das estradas de terra que levam à praia, cada vez mais casas estão sendo construídas ou estão em construção, além do significativo crescimento hoteleiro que a região tem experimentado nos últimos anos.

A clientela do resort é principalmente argentina, europeia e norte-americana, embora, segundo os frequentadores habituais, um número crescente de uruguaios esteja sendo visto.

— Chihuahua está se tornando menos tabu, mas ainda existe muito preconceito. As pessoas pensam que você fica nu para fazer sexo. Mas não é o caso: aqui, as pessoas ficam nuas para tomar sol, para nadar, para estar na praia. Não somos imorais, simplesmente gostamos de ficar nus — diz Rodal, um montevidéu de 65 anos, da sala de estar de seu hotel, que abriu com sua esposa, Marcela Medina, argentina, em 2001. Assim como ele, os hóspedes de seu hotel usam seus sarongues onde quer que estejam sentados.

'Não há como voltar atrás'

Ao atravessar as altas dunas que margeiam a praia, o primeiro sinal de chegada em Chihuahua é a visão de um argentino nu, de costas para a câmera, tomando sol em pé com as mãos na cintura. A marca branca da sunga revela que ele não é um frequentador assíduo da praia, mas sim pertence a outro grupo: aqueles que praticam o nudismo ocasionalmente. No caso dele, isso acontece uma vez por semana, sempre sozinho.

— Venho a Punta há uns 10 anos. Fico em Manantiales, sempre acompanhado. Mas sempre venho a esta praia sozinho; este é o meu lugar — diz Juan, que prefere não revelar seu sobrenome. Ele é produtor audiovisual, tem 50 anos e mora em Buenos Aires. Veio a Chihuahua pela primeira vez há dois verões. — Queria ver como era. Adorei. Andar nu na lagoa é incrível — conta.

Turistas aproveitam um dia de sol na tranquilidade de Chihuahua, em Punta del Leste — Foto: Pilar Camacho / La Nación
Turistas aproveitam um dia de sol na tranquilidade de Chihuahua, em Punta del Leste — Foto: Pilar Camacho / La Nación

Na praia, mais perto do mar, há guarda-sóis com namorados e casados. Há também famílias com filhos adultos. Nem todos estão nus; alguns estão vestidos, principalmente as mulheres. Entre eles, há algumas que usam biquíni e a maioria usa apenas a parte de baixo. Elas caminham pela praia, tomam sol e entram no mar. Até mesmo alguns vendedores ambulantes andam nus .

A praia está implicitamente dividida em dois setores: o setor gay, onde a grande maioria é composta por homens, e o setor heterossexual, onde há maior paridade entre homens e mulheres.

Entre os frequentadores assíduos, há uma frase que se repete constantemente: " Uma vez que você entra no mar nu, não há como voltar atrás". Há também uma palavra que reiteram quando perguntados por que praticam o nudismo: "Liberdade".

— Gosto da liberdade de ficar nu, tomar sol e entrar no mar — diz o arquiteto argentino Marcelo Bonelli, de 61 anos, enquanto toma sol deitado de costas na praia. — Descobri o nudismo com minha ex-esposa na Austrália em 1997 e não conseguia acreditar. Nunca mais voltei a uma praia normal sozinho. Quando meus filhos eram pequenos e passávamos os verões em Pinamar e Gesell, eu usava roupas. Mas agora que eles cresceram e viajo sozinho, sempre venho para cá. Passo meus dias lendo, tomando sol nu, basicamente fazendo o que não faço em Buenos Aires — diz Bonelli, natural de Olivos, que alugou uma casa a poucos metros da Praia de Chihuahua.

— Praticamos nudismo no mundo todo: na Dinamarca, na Alemanha, na Croácia… Mas este lugar tem algo de especial — diz Marlind, uma fisioterapeuta alemã de 59 anos, em inglês, enquanto toma sol com o marido, Hennning, de 62 anos, à beira da piscina do hotel El Refugio. Eles estão de férias na América do Sul. Primeiro, visitaram parentes em Bariloche e depois decidiram passar alguns dias a sós em Chihuahua.

— Gosto que a praia aqui seja mais tranquila, mais natural, sem infraestrutura. Só tem o mar e uma lagoa de água doce muito bonita — diz a alemã, que também destaca que na Europa é malvisto ir a uma praia de nudismo vestindo roupas,, enquanto em Chihuahua todos podem escolher se querem ou não usar traje de banho.

— Aqui você é livre e há poucas pessoas, ao contrário de outras praias em Punta. E o melhor é que você pode ficar nu sem ter que dar explicações — diz Leonardo Pintos, um advogado de 65 anos de San Isidro.

Ao longo das décadas, Chihuahua começou a perder o tabu que antes possuía, observa ele. Contribuiu para isso o fato de que, no início dos anos 2000, a praia recebeu ampla cobertura da mídia. As principais revistas argentinas deram grande destaque à região durante suas temporadas em Punta del Este. Com o tempo, cada vez mais argentinos começaram a visitá-la. Os uruguaios, no entanto, não.

— Era muito raro que pessoas viessem de Montevidéu ou do interior, por exemplo. E se viessem, ficavam muito cautelosas. Lembro-me de um cara que tirava e vestia a roupa a cada poucos minutos. Ele estava em alerta, caso alguém conhecido aparecesse. Hoje, felizmente, há cada vez mais uruguaios; eles abraçaram a prática — explica Roldán.

O nudismo, no entanto, continua sendo um nicho no Uruguai. E um nicho de pessoas com mais de 40 anos. É difícil encontrar nudistas na faixa dos 20 e 30 anos na praia .

Entre os visitantes mais jovens está Exequiel Salvador, de 45 anos, de Entre Ríos . Ele vem todos os anos com o marido, Ariel Villanueva, e um grupo de amigos que conheceram nesta praia há anos, incluindo italianos e espanhóis.

— Nos tornamos amigos durante um verão aqui, e estamos sempre em contato e organizamos viagens juntos. Ficamos em um hotel naturista para homens. Há pessoas dos Estados Unidos, Canadá, França… mais europeus e norte-americanos do que latinos. Eles têm menos preconceitos do que nós. Aqui ainda existem muitos tabus. As pessoas pensam todo tipo de coisa — diz ele, acrescentando: — Quero me aposentar aqui!

Fonte: Globo.com