'Fiquei muito surpreso': brasileiro entra na lista da Time das 100 pessoas mais influentes do mundo
Em entrevista ao Fim de Expediente, o cientista Luciano Moreira explicou o método que utiliza mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia no combate à dengue.
O brasileiro Luciano Moreira entrou para a lista da revista Time das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2026, na categoria "Inovadores", por liderar o desenvolvimento e a expansão de uma técnica de combate à dengue baseada no uso de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia.
No ano passado, o pesquisador da Fiocruz também foi reconhecido pela revista Nature como uma das dez pessoas que moldaram a ciência em 2025.
Em entrevista ao Fim de Expediente, o pesquisador explicou a origem da pesquisa, o desenvolvimento do método, hoje usado no Brasil e no exterior, e falou sobre o reconhecimento internacional.
Segundo Moreira, a descoberta começou durante um pós-doutorado na Austrália, onde trabalhou com o cientista Scott O’Neill, pioneiro na área. À época, os pesquisadores estudavam os efeitos da Wolbachia em moscas-das-frutas e perceberam que o microrganismo reduzia o tempo de vida dos insetos.
A hipótese inicial de O’Neill era inserir a bactéria no Aedes aegypti para reduzir o tempo de vida do mosquito e, consequentemente, frear a transmissão da dengue. Durante os testes, porém, os pesquisadores fizeram a principal descoberta do estudo: a Wolbachia era capaz de bloquear diretamente o vírus no organismo do inseto.
"Foi essa grande descoberta: a bactéria, no caso, estava bloqueando o vírus da dengue dentro do mosquito. Isso foi um grande achado, uma grande descoberta, que realmente mudou todo o conceito. E ali começou o programa internacional, que hoje está em 15 países e, aqui no Brasil, já está em 16 municípios."
Como funciona a técnica que usa bactéria para impedir transmissão da dengue?
Luciano explicou que a introdução da bactéria Wolbachia no Aedes aegypti foi resultado de um processo que levou mais de quatro anos e exigiu uma técnica de microinjeção. O pesquisador explicou que, depois dessa etapa inicial, não é mais necessário repetir a inserção da bactéria. Isso porque as fêmeas transmitem naturalmente a Wolbachia aos descendentes.
"Eles purificam a bactéria, que veio da mosca-da-fruta, e a injetam no ovo do mosquito Aedes aegypti. Isso demorou cerca de quatro anos para conseguir inserir a bactéria no mosquito. A partir desse momento, passa-se a ter uma linhagem de Aedes aegypti contendo a Wolbachia, e o que fazemos é a criação em larga escala desse mosquito. A bactéria é transmitida pelas fêmeas aos descendentes por meio dos ovos."
O pesquisador afirmou que, em áreas do Rio de Janeiro e de Niterói onde os mosquitos começaram a ser liberados entre 2014 e 2015, mais de 90% dos Aedes aegypti ainda carregam a Wolbachia.
Luciano Moreira ainda comentou o reconhecimento internacional que recebeu da revista Nature e da revista Time, afirmando ter sido surpreendido pelas homenagens. Segundo o pesquisador, os prêmios refletem um trabalho coletivo desenvolvido ao longo de anos.
"Também fiquei muito surpreso. Acho que é muito bom ver isso, mas o que mais me trouxe felicidade é ver que foi um trabalho de equipe. Tem muita gente trabalhando há muitos anos, se dedicando a esse programa, fazendo uma ciência de ponta e trazendo evidências muito importantes para dar a robustez que o programa tem, tanto internacionalmente quanto aqui. Isso é muito gratificante."
Por: CNN



