Yduqs, dona da Estácio, e Afya, de medicina, confirmam fusão e criam grupo de R$ 9 bilhões

Yduqs, dona da Estácio, e Afya, de medicina, confirmam fusão e criam grupo de R$ 9 bilhões

Yduqs, dona da Estácio, e Afya, de medicina, confirmam fusão e criam grupo de R$ 9 bilhões
Afya e Yduqs estão selando fusão que dá origem à gigante em ensino de medicina no Brasil Reprodução

A Yduqs, rede de ensino superior privado que é dona da Estácio e do Ibmec, e a Afya, de faculdades de medicina, confirmaram no fim da noite de quarta-feira uma fusão. No fim de agosto, as duas empresas já tinham antecipado que estavam conversando sobre uma possível combinação de seus negócios.

Segundo fato relevante divulgado pela Yduqs, que tem ações negociadas no Novo Mercado da B3, a empresa dona da Estácio terá 31% do novo grupo; a Afya terá 69%, mas a base acionária da companhia a ser criada será diluída.

A conclusão do negócio, que está sujeita à análise do Cade, órgão de defesa da concorrência no Brasil, está prevista para ocorrer em até 12 meses após a assinatura do acordo entre os dois grupos.

O racional por trás do negócio é criar uma complementariedade que permita a expansão das operações. Com o aumento no número de cursos de medicina no país e, consequentemente, a crescente concorrência nesse segmento, a Afya ganharia escala operacional. Do outro lado, a Yduqs agregaria uma rede de ponta na área de saúde a seu portfólio.

— A transação reflete essa visão estratégica de que as duas empresas são muito complementares e, juntas, podem potencializar suas oportunidades de crescimento. Estamos criando a maior plataforma de ensino superior do Brasil, aumentando a nossa exposição aos programas premium. Essa união vai potencializar as oportunidades que já existem hoje — disse Rossano Leandro, CEO da Yduqs, em videoconferência com analistas e investidores na manhã desta quinta-feira.

Juntas, as duas companhias somam perto de R$ 9,4 bilhões em receita, segundo dados ajustados fornecidos pelas companhias. A Yduqs está avaliada em R$ 2,98 bilhões, enquanto a Afya, cujas ações são listadas em Nova York, tem valor de mercado de US$ 1,2 bilhão (ou R$ 6,2 bilhões).

A estimativa é de que a fusão possa gerar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,2 bilhões em sinergias, com 80% dessa soma podendo ser alcançados nos prímeiros três anos após o fechamento da operação.

Infográfico sobre a fusão entre Afya e Yduqs — Foto: Editoria de Arte
Infográfico sobre a fusão entre Afya e Yduqs — Foto: Editoria de Arte

A nova companhia

Pelos termos da transação, a Afya será incorporada pela Yduqs sendo, posteriormente, extinta. A companhia seguirá listada no Novo Mercado da B3. Ao fim da transação, porém, os acionistas da Afya ficarão com 69% do negócio. Os 31% restantes caberão aos da Yduqs.

O grupo brasileiro, contudo, pagará ao menos R$ 750 milhões em dividendos a seus acionistas, desde que sejam cumpridas condições precedentes.

No segundo trimestre deste ano, Yduqs registrou lucro líquido de R$ 14 milhões, 54,2% abaixo do registrado em igual período de 2026. De janeiro a junho, o ganho foi de R$ 11 milhões, queda de 11% ante ao primeiro semestre do ano passado.

Já a Afya, listada na Bolsa de Nova York, teve lucro líquido R$ 463 milhões no primeiro semestre, aumento de 6,8% ante aos seis meses iniciais de 2025.

Afusão vai dar origem à companhia de maior valor de mercado dentre de educação listadas em Bolsa no Brasil.Combinadas, Afya e Yduqs valiam R$ 9,3 bilhões na quarta-feira, acima do dobro da atual líder na B3, a Cogna Educação, mostra levantamento feito por Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria, a pedido do GLOBO.

Como fica a liderança

Com a combinação de negócios, a estrutura acionária vai mudar. O grupo alemão Bertelsmann, controlador da Afya, será o acionista de referência da nova companhia, com uma fatia de 47,3% do capital.

Para ligar o nome ao negócio, o Bertelsmann é um conglomerado alemão que atua em 50 países nas áreas de mídia, serviços e educação. É dono de canais de TV, rádio e streaming, da editora Penguin Random House — que no Brasil controla a Companhia das Letras, além da BMG, de direitos musicais. Em 2025, o lucro da companhia superou 1 bilhão de euros.

A família Esteves, também sócia da Afya, terá 7,6% da nova empresa. Do lado da Yduqs, a Advent, hoje com 17,1%, passará a deter 5,3% do grupo pós-fusão, enquanto a família Zaher, que soma 15,5% da empresa do Rio, terá 4,8%.

A maior parte das vagas do conselho de administração da companhia que nasce do acordo será indicada pelo Bertelsmann. As famílias Esteves e Zaher e a Advent indicarão um membro do colegiado, cada.

Kay Krafft, CEO da Bertelsmann Education, assumirá a presidência do novo colegiado, enquanto Virgilio Gibbon, CEO da Afya, vai liderar a companhia combinada. Rossano Marques, CEO da Yduqs, vai atuar como presidente em ensino superior, com exceção de medicina.

Os principais acionistas da Yduqs e da Afya ficarão impedidos de vpertender ações de sua titularidade por um prazo de 180 dias após o fechamento da operação.

Foco no segmento premium

Será uma virada de chave no resultado do grupo. Atualmente, a receita gerada pelas unidades premium da Yduqs — Idomed e Ibmec — representa 32% da receita total. Com a fusão, essa fatia vai saltar a 55%, abocanhando ainda dois terços da geração de caixa. Isso vai transformar a companhia em "um negócio liderado pelo premium", afirma Leandro.

— É um segmento de negócio bastante rentável, resistente a movimentos macroeconômicos ao longo dos tempos, e ainda com um relevante potencial de crescimento — diz ele. — Então é um movimento superestratégico numa direção que a gente já vinha apontando há algum tempo.

A medicina é o segmento premium do ensino superior privado. Na Idomed, por exemplo, unidade de medicina da Yduqs, o tíquete médio de um aluno matriculado há mais de um ano foi de R$ 13.037 no primeiro semestre. Nos demais cursos presenciais do grupo, a mensalidade média ficou em R$ 973. A escala pesa nessa parceria. A Yduqs soma 11,8 mil alunos em medicina, ante a 380 mil no presencial.

A Afya opera 63 campi na área de saúde no Brasil, 32 delas com cursos de medicina e 25 oferecendo pós-graduação e educação continuada em áreas de saúde e médicas no país. A nova companhia vai totalizar 38 mil alunos de medicina, com 5,9 mil vagas anuais, ou 12% das mais de 50 mil autorizadas pelo governo em todo o país. Ao todo, serão 176 campi em 26 estados do Brasil, reunindo 1,6 milhão de estudantes.

— Vejo essa operação como uma combinação de competências. A Yduqs traz uma plataforma muito maior e diversificada de graduação, enquanto a Afya acrescenta uma posição muito forte em Medicina e no ecossistema de formação médica — diz Paulo Presse, coordenador de estudos de mercado da Hoper Educação. — O principal ganho me parece estar na complementaridade do portfólio, no peso maior dos ativos premium e nas sinergias operacionais e financeiras.

Questionado sobre que riscos a operação pode representar à concorrência e se caberia a aplicação de remédios pelo Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (Cade), Leandro se limitou a dizer que confiam na complementariedade das duas companhias nessa operação para que a fusão seja aprovada.

Os analistas Vinicius Figueiredo, Lucca Marquezini e Felipe Amancio, do Itaú BBA, afirmaram em relatório desta quinta-feira que veem "uma clara justificativa estratégica para combinação das empresas, considerando a complementariedade de suas operações de educação médica e as oportunidades de ganho de escala, redução de custos e sinergias comerciais".

Em paralelo, apontam que a sobreposição geográfica de unidades de ensino de medicina em alguns mercados locais poderá ser alvo de análise pelo regulador. Teresina e Ji-Paraná estariam entre os mercados mais sensíveis, além da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, apontou relatório anterior da instituição. "Caso a análise regulatória identifique preocupações concorrenciais, precedentes sugerem que a alienação direcionada de faculdades de medicina ou de vagas em áreas de captação específicas poderia ser uma solução plausível, em vez de medidas mais amplas que afetassem a combinação das empresas em âmbito nacional", explicava.

Focos prioritários

Haverá duas frentes prioritárias a serem ampliadas. Uma delas será a de educação continuada, mirando na oferta de cursos preparatórios para exames de residência, pós-graduação médicas e preparação para provas de título/especialização. A Afya somava mais de 56 mil alunos ativos nessa frente no fim de junho deste ano. É demanda que cresce a reboque da expansão dos cursos de medicina no país.

A outra, que também olha para os médicos e profissionais de saúde já atuando, é a de soluções para prática médica, tomando por base a atuação da Afya como uma medtech, numa plataforma que inclui recursos tecnológicos como o Whitebook, de apoio à decisão clínica, entre outras soluções digitais e com inteligência artificial.

As grandes transações têm feito parte dos avanços da Yduqs. Em 2019, a companhia fechou a compra da Adtalen Brasil, dona de Ibmec, por R$ 1,92 bilhão. Anos antes, em meados de 2016, chegou a anunciar a fusão da Estácio com a Kroton (agora Cogna) numa transação de R$ 5,5 bilhões. O negócio, no entanto, acabou barrado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) no ano seguinte.

Na transação de agora, a Yduqs foi assessorada pelo BTG Pactual e pelos escritórios Lobo de Rizzo e Spinelli Advogados, além de Milbank LLP e Convers Dill & Pearman. A família Zaher teve assessoria da Dikaios e do Pinheiro Neto Advogados. 

Já a Afya foi apoiada pelo Bank of America Merrill Lynch, Banco Múltiplo, Demarest Advogados, Caminati Bueno Advogados, Maples and Calder LLP e Davis Polk & Wardwell LLP.