Terremoto na Colômbia: em corrida contra o tempo, socorristas buscam sobreviventes após abalo que deixou mais de 224 mortos
Equipes de resgate procuram vítimas sob os escombros, enquanto milhares seguem desaparecidos e o governo mobiliza forças militares e policiais
Um dia após um terremoto de magnitude 7,4 ter atingido o oeste da Colômbia, equipes de resgate e voluntários seguem em uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes. O tremor — o mais forte desde 1979 — deixou ao menos 224 mortos e mais de 500 feridos, além de milhares de desaparecidos e prédios destruídos, segundo balanços mais recentes divulgados pela Associação Colombiana de Cidades Capitais (Asocapitales). Os números, porém, ainda são considerados preliminares e devem aumentar nas próximas horas.
Grande parte das mortes está concentrada na cidade de Pereira, na região cafeeira. Cali, capital de Valle del Cauca e terceira cidade mais populosa do país, também foi fortemente atingida. Um toque de recolher foi decretado na região, e diversas áreas foram militarizadas, em especial as partes onde ainda são realizadas operações de resgate entre os escombros. Quibdó, capital de Chocó, assim como Manizales e Armenia, vizinhas de Pereira na região cafeeira, são outras das cidades mais afetadas, com edifícios destruídos, aeroportos fechados e serviços funcionando de forma intermitente, segundo publicado pelo El País.
Em Cali, que se preparava para receber neste fim de semana o popular festival de música do Pacífico Petronio Álvarez, os socorristas ainda vasculham os escombros em busca de sobreviventes. Várias instalações hospitalares foram danificadas, disse a Organização Mundial de Saúde, destacando o desabamento de áreas de cardiologia e pediatria do Hospital Universitário do Valle. Em Pereira, onde pelo menos 60 pessoas morreram, quase toda a área ficou sem eletricidade, e as pessoas caminhavam pelas ruas com lanternas.
— É angustiante demais, não tenho palavras para tudo o que está acontecendo neste momento. Estamos tentando retirar os escombros — disse à AFP Juana Marín, profissional de marketing de 25 anos que procurava pessoas em frente à praça principal. — Estou derrotada. É triste demais ver toda a cidade assim, sabendo que há gente viva ali.
O terremoto revive a tragédia do forte tremor de 1999, que deixou quase 1,2 mil mortos na região. O epicentro do tremor foi localizado perto de San José del Palmar, em Chocó, uma área pobre e de difícil acesso, com estradas afetadas pelo fenômeno. A região, frequentemente assolada por grupos armados rivais, é uma das mais negligenciadas do país. Grande parte de Chocó só é acessível de barco, pela floresta ou de avião. Ainda não há informações precisas sobre a extensão dos danos no local.
— Eu via as pessoas saindo nuas, as pessoas pulando de suas casas, desesperadas — disse Wilmer Cuesta, estudante de direito que decidiu ajudar nos resgates em Chocó.
‘Terra dos esquecidos’
O desastre ocorreu apenas três dias após Abelardo de la Espriellaassumir a Presidência, depois de tomar posse na sexta-feira. Ele, que anunciou ter mobilizado “todo o aparato militar e policial” para responder à situação, viajou na noite de segunda-feira para Quibdó, capital de Chocó, para avaliar o cenário na região. Foram enviados engenheiros, equipes de resgate e cães farejadores para áreas atingidas, e o novo líder anunciou subsídios para o aluguel daqueles cujas casas foram danificadas enquanto elas passam por reparos.
— Chocó nunca mais será a ‘terra dos esquecidos’ — disse.
Ao todo, pelo menos 1,6 mil edifícios foram danificados ou desabaram, e famílias publicaram informações sobre parentes desaparecidos em sites administrados por civis. Até a noite de segunda-feira, mais de 2,7 mil pessoas haviam sido dadas como desaparecidas. Dana Carolina Zamora publicou uma foto de seu tio desaparecido, Miguel Ángel Zamora, de 60 anos, segurando seu cachorro no colo. O agricultor vivia em uma área rural de El Cairo, cidade de cerca de 7 mil habitantes, onde autoridades disseram que 80% foi danificada. Zamora disse estar preocupada porque seu tio morava em uma casa frágil, feita de madeira e barro.
— Estamos com medo. Esperamos que não seja esse o caso, que ele esteja bem e que seja apenas uma falha de comunicação. Mas não tivemos nenhuma notícia dele — disse Zamora à Associated Press.
Ainda em Cali, o prefeito decretou toque de recolher até às 6h (8h de Brasília), enquanto socorristas atendiam sem descanso os bairros mais afetados. Eles formaram correntes humanas para retirar os restos de edifícios desabados, com picaretas e ferramentas básicas. De tempos em tempos, gritam “silêncio” para conseguir ouvir sinais de vida dos presos os escombros. Pelo menos 61 prédios foram destruídos, 18 centros de saúde foram danificados e 52 instituições de ensino foram afetadas.
— Chegar até aqui foi impressionante, parecia o fim do mundo, os carros e as motos na contramão [com pessoas] procurando seus entes queridos — disse o socorrista Nelson Moreno, que busca uma amiga sob duas torres de cinco andares que desabaram, acrescentando que o pai e o bebê dela estão feridos, mas conseguiram sair com vida.
Mãe e bebê são resgatados com vida de escombros após terremoto na Colômbia
Seis aeroportos sofreram danos em sua infraestrutura e ficaram sem operação para voos comerciais, informou o presidente. Em Bogotá, edifícios foram evacuados e centenas de pessoas saíram às ruas em meio ao barulho das sirenes. Até o momento, foram registradas 47 réplicas, segundo a autoridade geológica.
Ajuda internacional
Os Estados Unidos, aliados do novo governo, ofereceram uma ajuda de US$ 15,5 milhões para lidar com a emergência. A presidente da União Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a UE disponibilizou seu serviço de satélites Copernicus para as operações de resgate. Israel, México, Chile, Argentina e El Salvador também ofereceram ajuda, enquanto o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, manifestou solidariedade e disse que o Brasil está à disposição para ajuda.
Shakira, a célebre cantora de Barranquilla, escreveu uma mensagem comovida no X: “Meu coração está (...) com as famílias que estão passando por momentos de angústia”.
O terremoto foi sentido em países vizinhos, incluindo em algumas regiões da Venezuela, na capital equatoriana, Quito, e em diversas províncias do Panamá. Esses países estão localizados no Cinturão de Fogo do Pacífico, uma zona de alta atividade sísmica e vulcânica onde ocorre a atividade das placas tectônicas de Nazca e do Caribe. Em junho, um terremoto duplo de magnitude 7,2 e 7,5 causou mais de 6 mil mortes e destruição na Venezuela.
Por: O Globo



