PF rastreia caminho do dinheiro de Vorcaro para filme sobre Bolsonaro nos EUA; veja o que se sabe
Desde que os áudios e mensagens de Flávio e Vorcaro vieram a público, diferentes versões sobre o destino dos recursos foram divulgadas por bolsonaristas
A Polícia Federal (PF) investiga se o dinheiro solicitado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro também foi usado para custear a permanência do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Desde que os áudios e mensagens de Flávio e Vorcaro vieram a público, diferentes versões sobre o destino dos recursos foram divulgadas por bolsonaristas.
Flávio admitiu os aportes feitos por Vorcaro ao filme “Dark horse” — e as reclamações sobre “parcelas” não quitadas —, mas pessoas envolvidas na produção do projeto, como o deputado Mario Frias (PL-SP) e a produtora Go Up, além de Eduardo, alegaram que não houve financiamento pelo dono do Master ou de empresas ligadas a ele. Ontem, o deputado disse que foi mal interpretado quando falou que “não há um centavo do Master”: “nosso relacionamento foi com a Entre, pessoa jurídica distinta”.
À GloboNews, Flávio confirmou o uso do Havengate para a produção, reafirmou a existência de um contrato sigiloso de patrocínio, mas negou que parte do dinheiro tenha sido destinado ao irmão:
— Todos os recursos aportados nesse fundo, específico para produção do filme, foram integralmente utilizados para fazer o filme — disse.
Eduardo nega que tenha recebido dinheiro do fundo.
Advogado de ‘confiança’
Também em entrevista à emissora, Flávio ressaltou que Calixto é advogado de “confiança” de Eduardo. O deputado cassado é réu em um processo no Supremo Tribunal Federal, acusado de coagir ministros da Corte com o objetivo de impedir a condenação de eu pai, sentenciado a mais de 27 anos de prisão por liderar uma trama golpista.
Calixto é dono de um escritório de advocacia na região central de Dallas, no Texas. O endereço é onde também está registrado nos sistemas empresariais o fundo Havengate, que teria sido usado para financiar a produção cinematográfica.
O currículo de Calixto, porém, não inclui atuação na área financeira ou artística. Ele se apresenta como especialista em migração, com mais de 20 anos na área, e experiência perante órgãos como o U.S. Citizenship & Immigration Services e o Departamento de Estado dos EUA.
O advogado também destaca atuar em processos ligados ao visto EB-5, que concede residência permanente a investidores.
Calixto passou a assessorar Eduardo em articulações políticas e jurídicas nos Estados Unidos, mas a relação dos dois é anterior à mudança de país. Postagem nas redes sociais mostram um encontro de representantes da Calixto Advisors, empresa de Paulo Calixto, com Eduardo Bolsonaro em agosto de 2023. Procurados, ambos não se manifestaram.
Calixto também atuou como representante do Instituto Liberdade, registrada no mesmo endereço em Dallas. A entidade é presidida pelo empresário Paulo Generoso, aliado de Eduardo e apoiador dos atos golpistas de 8/1.
Em meio ao constrangimento gerado na pré-campanha de Flávio, bolsonaristas têm compartilhado diferentes versões sobre a destinação do dinheiro. Eduardo, por exemplo, compartilhou nas redes sociais tanto a versão de seu irmão Flávio sobre os repasses de Vorcaro como o da produtora Go Up.
Em comunicado divulgado pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, a produtora afirmou que não recebeu “um único centavo” de Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário.
Anteontem, Frias foi na mesma linha, e acrescentou: “E, ainda que houvesse, não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada”. Ontem mudou.
Como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, o publicitário Thiago Miranda confirmou que intermediou a negociação que levou Vorcaro a aportar no filme. De acordo com ele, o valor previsto seria maior, mas os repasses foram suspensos com a crise na instituição financeira. Miranda afirmou ainda que a ligação de Vorcaro com o filme não apareceria publicamente.
Segundo Miranda, o projeto do filme foi apresentado a ele por Mario Frias, que pediu ajuda por estar com dificuldade de financiamento. O publicitário sustenta que, após Vorcaro manifestar interesse em patrocinar o filme, voltou a falar com Frias, para relatar que o "Daniel ia entrar". Em seguida, o contrato foi assinado, ainda de acordo com Miranda.
Repasses: PCC e máfia
A empresa usada por Vorcaro para fazer os repasses, a Entre, tem histórico de transações suspeitas. A sociedade enviou R$ 139 milhões a empresas investigadas pela PF por suspeita de lavagem de dinheiro. As movimentações, que ocorreram entre julho de 2022 e dezembro de 2025, envolvem alvos suspeitos de ligação com um esquema de fraudes no setor de combustíveis, com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) e com integrantes da máfia italiana.
Os repasses constam de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão de combate à lavagem de dinheiro vinculado ao Banco Central.
Em nota, o grupo informou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”.
“A empresa reforça seu compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente”.
Sediada numa travessa da Avenida Faria Lima, centro do mercado financeiro em São Paulo, a Entre é comandada pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior. Conhecido pelo apelido de “Mineiro”, o executivo tem trajetória ligada ao mercado financeiro. Ele já teve passagens em instituições como Banco Nacional, Banco Garantia e Credit Suisse.
Em mensagens interceptadas pela PF, Vorcaro chega a sugerir fazer uma operação “via Entre”, o que Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro e apontado como seu operador financeiro, responde se poderia "pedir pro Minas". O contato de Freixo estava salvo na agenda do dono do Master como “Mineiro”.
O Globo



