Maduro capturado: Escolhido por Chávez e por Cuba, líder venezuelano termina derrotado pelo poder bélico dos EUA

Ex-sindicalista e militante de esquerda, líder venezuelano teve seus governos marcados por repressão a opositores, denúncias de violações dos direitos humanos e crises econômicas

Maduro capturado: Escolhido por Chávez e por Cuba, líder venezuelano termina derrotado pelo poder bélico dos EUA
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — Foto: Federico PARRA / AFP/12/10/2025

Quando o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1999-2012) adoeceu de um câncer terminal e teve que se afastar do poder, a escolha de seu sucessor provocou debates dentro e fora da Venezuela. Muitos apostaram num nome do mundo militar e, nesse caso, o mais cotado era Diosdado Cabello, que participou de tentativas de golpe de Estado ao lado de Chávez no início da década de 1990 e, desde então, ocupou lugares de destaque no círculo do líder bolivariano. Mas a opção de Chávez foi por um civil e nela pesaram dois elementos centrais: lealdade absoluta e entrega a um projeto de poder que nasceu nos quartéis e, após dois levantes fracassados, migrou para a política. Nicolás Maduro venceu a disputa pela sucessão não apenas por escolha do ex-presidente, mas, também, do poder cubano, peça central da autoproclamada revolução bolivariana na Venezuela.

Desde sua chegada ao Palácio Miraflores, em janeiro de 1999, Chávez consultou permanentemente o poder da ilha, primeiro com Fidel Castro, seu grande mentor na política, e depois com os que o sucederam. Cuba sempre foi um apoio indispensável para Chávez que, já doente, preferiu tratar-se em Havana e não em hospitais de países da Europa ou de vizinhos como o Brasil. A confiança nos cubanos era total, e contar com essa confiança era essencial para ter poder dentro do chavismo. Maduro a conquistou, Cabello — que faz poucas visitas à ilha — não.

Chávez anunciou sua decisão de entregar o comando do país a Maduro em 8 de dezembro de 2012, com uma frase que passou para a História: “Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total é que em caso de que, como manda a Constituição, devam ser convocadas novas eleições presidenciais, vocês escolham Nicolás Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela. Peço isso do fundo do coração.”

Maduro fora vice-presidente de Chávez e ministro das Relações Exteriores, na fase mais importante de sua participação no governo, quando o líder bolivariano ainda estava vivo. Ambos se conheceram nos anos em que Chávez esteve preso, após as duas tentativas fracassadas de golpe de Estado. Cília Flores, segunda esposa de Maduro, era uma das advogadas do já famoso tenente-coronel. Nas visitas à prisão, Maduro, na época um jovem sindicalista que trabalhara no metrô de Caracas e iniciaria sua carreira política na esquerda venezuelana, ficou fascinado com as ideias de Chávez. Nascia o movimento bolivariano, que depois levou ao surgimento do Movimento Quinta República, o partido com o qual Chávez venceu as eleições de 1998, com 56,2% dos votos.

Maduro esteve desde o primeiro momento junto ao tenente-coronel, que, após fracassar com as armas e ser indultado pelo governo de Rafael Caldera, chegou ao poder através das urnas. Eram outros tempos, e a Venezuela ainda era uma democracia plena.

Com Chávez vivo, Maduro era uma figura sem brilho no governo chavista. Foi um chanceler que seguiu fielmente os desejos de seu presidente, entre eles a entrada da Venezuela no Mercosul — bloco do qual o país foi formalmente expulso em 2016, por violação da cláusula democrática. Como vice-presidente, era a sombra de Chávez.

Disciplina como virtude

Amigos de infância e ex-companheiros da vida política de Maduro afirmam que o presidente chegou aonde chegou porque “sempre fez o que lhe pediram, sem questionar”. Suas negociações dentro do chavismo foram, principalmente, com a ala militar. Com o passar dos anos, Maduro se tornou uma figura de confiança da cúpula militar, que admitia sua capacidade de resistência a ofensivas externas. Ao longo dos anos, a Venezuela chegou a enfrentar mais de mil sanções internacionais, terminando com seu próprio presidente sendo considerado o líder de um cartel de drogas, o Cartel de los Soles, por parte dos Estados Unidos de Donald Trump. Ao passar a integrar a lista de organizações terroristas identificadas pela Casa Branca, Maduro sofreu seu golpe final.

Com um país isolado, asfixiado economicamente, cercado militarmente e sem a menor condição de se defender, o chavismo finalmente sucumbiu. O esperado ataque dos EUA ao território venezuelano encerrou anos de perseguição a um líder que, uma vez no poder, tornou-se um ditador. Em aliança com o chavismo duro e os militares, Maduro sufocou a oposição e expulsou do país milhões de venezuelanos.

Todos na Venezuela sabiam que um segundo governo de Trump significaria uma ameaça de vida ao chavismo. Resistir foi a palavra de ordem, em sintonia com o que faz Cuba há décadas. Mas o fim chegou. Os ataques letais a barcos de supostos traficantes na região — e posteriormente também no Pacífico — deram sequência ao avanço militar americano na região, algo inédito na América do Sul.

Maduro, que disputou pela primeira vez a Presidência da Venezuela em 2013, acabou sendo derrotado pelo poder bélico americano. Durante todo o tempo em que o líder venezuelano permaneceu no poder, o país viveu numa permanente montanha-russa, com ondas de protestos e repressão, que custaram a Maduro denúncias de violações dos direitos humanos por parte das Nações Unidas, uma investigação no Tribunal Penal Internacional (TPI) e mais de mil sanções por parte dos Estados Unidos e outros países. O chavismo argumenta que as sanções, defendidas por setores da oposição — que também promoveram a intervenção estrangeira —, asfixiaram a Venezuela e impediram o presidente de governar. A realidade é que Maduro não conseguiu garantir nem estabilidade política, nem prosperidade econômica, como esperava Chávez.

Trajetória no chavismo

Nicolás Maduro Moros nasceu em 23 de novembro de 1962, na cidade de Caracas, capital da Venezuela. É filho de Nicolás Maduro García e Teresa de Jesus Moros. Pertenceu a uma família de classe média da capital venezuelana, e sua juventude foi marcada pela militância sindicalista e de esquerda. A amizade com Chávez foi o trampolim para a grande política, na qual nunca se destacou pela oratória ou outras habilidades. Maduro fazia o que lhe pediam, essa era sua principal característica.

Em 1983, foi guarda-costas do candidato presidencial José Vicente Rangel, que depois se tornaria vice-presidente de Chávez e uma figura de proa dos anos de glória do chavismo. Anos depois, participou da Assembleia Constituinte que redigiu a Constituição Bolivariana de 1999. No ano seguinte, foi eleito para a Assembleia Nacional, o Parlamento venezuelano. Na sequência, foi porta-voz da Casa nos anos de 2005 e 2006, antes de se tornar ministro das Relações Exteriores entre 2006 e 2013.

Disputa com os EUA

Desde o início da escalada de tensão com o segundo governo de Trump, Maduro respondeu às acusações de narcoterrorismo e disse estar disposto a resistir às "forças imperialistas dos EUA", alegando que os ataques eram uma tentativa de provocar uma mudança de regime. O líder venezuelano liderou a campanha contra a ofensiva de Trump, ao lado das principais figuras do governo.

A propaganda do chavismo funcionou o mais rápido possível. Nos meses prévios ao ataque americano, Maduro anunciou exercícios militares e treinamentos armados para civis. Em outubro, após Trump confirmar que havia autorizado a Agência Central de Inteligência (CIA) a conduzir ações secretas na Venezuela, citou os "golpes de Estado orquestrados pela CIA" na América Latina. Alguns dias mais tarde, afirmou que havia "desmantelado uma célula criminosa" patrocinada pela agência americana.

Cartaz do Departamento de Estado com oferta de recompensa por captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — Foto: Reprodução
Cartaz do Departamento de Estado com oferta de recompensa por captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — Foto: Reprodução

A tensão se elevava dia após dia. Os EUA subiram a recompensa pela captura de Maduro para US$ 50 milhões (R$ 270 milhões) sob acusações de “narcoterrorismo”. Em paralelo, as investigações no Tribunal Penal Internacional (TPI) por supostos crimes de lesa-humanidade cometidos pelas forças de segurança chavista continuam. A ação sempre foi uma enorme dor de cabeça para Maduro e seus aliados, e um dos motivos que o chavismo tinha para não deixar o poder. O risco de as principais figuras do regime terminarem na prisão era motivo de tormento para todos.

Nos anos em que Maduro esteve no pode,r o chavismo, em suas próprias palavras, se tornou um regime cívico, militar e policial. Amparado por esse regime, foram feitos negócios milionários, nasceu a chamada burguesia bolivariana, associada a parceiros do mundo que continuaram apoiando a Venezuela. Russos, árabes, iranianos e turcos fizeram parte desses negócios, asseguram lideranças opositoras. Maduro construiu um império, enquanto milhões de venezuelanos continuaram vivendo na pobreza. Os erros permanentes da oposição deram ainda mais vida ao chavismo, que acabou caindo pela intervenção de um poder estrangeiro. 

Por: O Globo