Garantido fará seu primeiro tema contracolonial em 2026

Garantido fará seu primeiro tema contracolonial em 2026
Foto: Divulgação

O boi-bumbá Garantido lançou, em 15 de outubro, o tema para o festival folclórico de 2026: “Parintins: portal do encantamento”.

Em nota lançada por meio de suas redes sociais, o Garantido ressalta Parintins como uma ilha encantada, lócus de convergência de energia cósmica ancestral.

Desde que o campeonato foi retomado, em 2022, após a suspensão em função da pandemia de covid-19, o Garantido vinha apostando em temas genéricos: “Amazônia do povo vermelho” (2022), “Garantido por toda vida” (2023), “Segredos do coração” (2024) e “Boi do povo, boi do povão” (2025), este sagrando-se o único tema campeão dessa série.

Neles, o boi-bumbá da baixa da Xanda exalta a sua própria comunidade. Mas, o vermelho e branco apostará em um tema mais específico em 2026: a conformação cosmológica da ilha Tupinambarana.

Leitura contracolonial

A nota de lançamento menciona encantados e encantarias e sugere abandonar a perspectiva que coloca curupiras, bichos do fundo e matintas na seara das lendas, como crendices e superstições de gente que ignora a verdade científica, as que se comprovam, segundo parâmetros próprios.

A visão de mundo dos povos amazônicos é muito mais integrada e holística do que comporta a ciência do mundo dos brancos. Essa, aliás, é bastante limitada até para a fé cristã, vertente religiosa que acompanha o projeto colonial no Ocidente.

Será a primeira vez que o Garantido apostará em uma perspectiva objetivamente contracolonial para vencer o festival. O que já vem sendo feito pelo seu contrário há alguns anos.

Contudo, se o boi Caprichoso aposta em abordagens mais politizadas, o Garantido optou por uma abordagem contracolonial da espiritualidade.

O portal da espiritualidade

Em seu enredo, Parintins aparece como portal de espiritualidade. Curiosamente, Parintins, uma ilha, está inscrita em uma lista de ilhas que se movimentam em torno de bois de pano e forte espiritualidade: São Luís, no Maranhão; Boipeba, na Bahia; e Florianópolis, em Santa Catarina.

Além disso, faz parte da cosmologia do tambor de mina, religião afroamazônica, que as três princesas turcas, Mariana, Jarina e Erondina se ajuremaram na região entre Parintins e Santarém (PA). Ou seja, não passam pela experiência da morte, transformando-se em encantadas, que podem metamorfosear-se em seres amazônicos visíveis, como borboletas, onças e araras, que acompanham os humanos em sua jornada na Terra.

A religião católica também encontrou terreno fértil na ilha Tupinambarana. E deverá aparecer inclusive como importante local para a fé católica, já que faz a maior festa religiosa do Amazonas para Nossa Senhora do Carmo.

A cura da água

Faz parte da compreensão dos povos tradicionais que a região do baixo rio Amazonas abrigaria um portal de espiritualidade.

A região de Parintins está inserida no maior aquífero de água potável do planeta, o aquífero Alter do Chão, o que é apontado como aporte propício para a cura espiritual.
Aliás, a vila de Alter do Chão, localizada em Santarém, há décadas, concentra diversos centros de cura espiritual, especialmente relacionados à ingestão de ayuascha.

A espiritualidade da arte

Se Alter do Chão pode ser apontada como lócus de cura espiritual, Parintins pode ser apontada como lugar onde a cura se faz pela arte.

Afinal, a ilha especializou-se na invocação dos seres que são invisíveis (para a maioria de nós). Iaras, curupiras, xamãs ingerados em bichos etc., se materializam em plena arena do bumbódromo diante de nossos olhos.

A arena torna-se solo sagrado de uma parte invisível do mundo, reconstituída por meio de alegorias, toadas e fantasias, movida por sentimentos mundanos como a paixão, mas também o ciúme e a inveja.

O boi-bumbá Garantido deverá nos contar histórias que já conhecemos. Porém, promete recolocar seres invisíveis em seu lugar de verdade ontológica dos povos amazônicos, indígenas, caboclos e quilombolas.

*A autora é doutora em antropologia. BNC Amazonas 

https://bncamazonas.com.br/garantido-fara-seu-primeiro-tema-contracolonial-em-2026/