Dólar cai a R$ 5,17, menor valor desde maio de 2024, após derrubada de tarifas; Bolsa sobe

-Moeda americana fecha em nova mínima e Ibovespa sobe aos 190 mil pontos -Investidores também reagem à divulgação de dados mistos da economia americana

Dólar cai a R$ 5,17, menor valor desde maio de 2024, após derrubada de tarifas; Bolsa sobe
Cédulas de dólar - Gabriel Cabral/Folhapress

O dólar fechou em queda de 0,99%, cotado a R$ 5,175, e renovou a mínima em quase dois anos, após a Suprema Corte dos EUA derrubar as tarifas globais impostas por Donald Trump.

A moeda se desvalorizou ao longo de todo o pregão, em meio à divulgação de dados mistos da economia americana —com o PIB crescendo menos do que o esperado e a inflação acima das projeções. No começo da tarde, a divisa intensificou a queda com a decisão do tribunal beneficiando ativos de mercados emergentes, como o real e o Ibovespa.

A última vez em que o dólar esteve nesse patamar foi em 28 de maio de 2024, há quase 21 meses, quando encerrou o dia a R$ 5,160. Na mínima desta sexta, a moeda chegou a R$ 5,173.

Aberta até às 18h, a Bolsa de Valores brasileira retomava o patamar dos 190 mil pontos. Às 17h22, avançava 1,10%, aos 190.726 pontos —a caminho de um novo recorde de fechamento. O movimento revertia as perdas da manhã, quando chegou a cair 0,97%.

No começo da tarde desta sexta-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que as tarifas impostas pelo presidente americano Donald Trump contra diversos países são ilegais. A decisão foi tomada por seis votos a três.

O julgamento tem como pano de fundo um debate jurídico iniciado em novembro do ano passado, que envolve a legalidade das tarifas.

Trump se apoiou na IEEPA —Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional— para aplicar as sobretaxas a todos os países sem aprovação do Congresso. Os juízes da Suprema Corte discordaram que a lei de 1977, criada para situações de emergência, de fato concede ao presidente esse poder.

A derrota representa um duro golpe econômico e político a uma das iniciativas mais emblemáticas do segundo mandato de Trump. Além de perder capital político, os EUA podem ser obrigados a devolver mais de US$ 175 bilhões (R$ 912 bilhões) em arrecadação tarifária, segundo cálculo de economistas do Penn-Wharton Budget Model a pedido da Reuters.

No exterior, a decisão impactou Bolsas americanas e europeias. Nos EUA, o Dow Jones subia 0,42%, o S&P 500 ganhava 0,45% e o Nasdaq Composite avançava 0,98% às 16h43. Na Europa, destaque para o índice STOXX 600, que fechou em alta de 0,84%, a 630,56 pontos.

Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, os mercados reagem de forma positiva, diante da menor incerteza jurídica e da redução de custos para as companhias listadas. "As tarifas não resultaram em choques inflacionários em um primeiro momento, mas podem pesar sobre o crescimento [de empresas] —e removê-las pode melhorar a produtividade."

Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, afirma que, para países emergentes, a decisão reduz o risco de retaliações em cadeia. "Favorece fluxos para moedas locais em um cenário de dólar mais fraco e para ativos de risco, como o Ibovespa, ao melhorar o apetite global por commodities".

A divulgação de dados econômicos dos EUA também esteve no foco do pregão. O PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA cresceu a uma taxa anualizada de 1,4% no último trimestre, informou o Departamento de Comércio nesta sexta-feira (20). Economistas consultados pela Reuters previam uma expansão de 3,0%.

Em contrapartida, o núcleo da inflação nos Estados Unidos acelerou mais do que o esperado em dezembro. O índice PCE, métrica de inflação favorita do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), subiu 0,4% em dezembro, ante uma previsão de alta de 0,3%.

Nos 12 meses até dezembro, o núcleo do índice avançou 3,0%, de 2,8% em novembro.

"O PIB americano cresceu abaixo do esperado, sinalizando um enfraquecimento da economia, em parte influenciado pelas paralisações do governo. Esse cenário contribuiu para o enfraquecimento do dólar e para a melhora no fluxo de capital para países emergentes", diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos

Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, a retirada do tarifaço somada aos dados divulgados melhora apetite por moedas emergentes. "Para mercados emergentes a combinação é construtiva. Desaceleração nos EUA e menor tensão comercial tendem a favorecer fluxo para ativos de maior risco".

No Brasil, a agenda foi esvaziada de indicadores. O destaque ficou para dois leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) do BC (Banco Central) no valor total de US$ 2 bilhões, para rolagem do vencimento de 3 de março. As recompras pelo BC serão em 2 de junho e 2 de julho.

Os leilões são intervenções do BC (Banco Central) no câmbio. Na prática, eles servem para aumentar a quantidade de dólares disponíveis para os investidores, seguindo a lei da oferta e demanda. Ou seja, quanto mais moeda puder ser comprada, menor vai ser a cotação dela.

Segundo o Boletim Focus, divulgado na última quarta em virtude do feriado de Carnaval, a expectativa entre economistas consultados é de que a moeda americana encerre 2026 em R$ 5,50.

"Esta é a projeção, mas há expectativa de volatilidade no curto prazo dependendo de indicadores externos e fluxos de capitais, além do 'trade eleitoral' que deve ficar mais evidente a partir de março", afirma Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX.

Nos últimos meses, o Brasil tem se beneficiado de um fluxo de investidores estrangeiros no mercado brasileiro. O comportamento impacta tanto o dólar quanto a Bolsa de Valores Brasileira.

A entrada de investidores estrangeiros no país deriva de um movimento de diversificação de carteiras em escala global, reflexo, entre outros fatores, dos temores instalados pela condução geopolítica do governo Donald Trump.

A manutenção dos juros brasileiros a 15% —o maior em quase duas décadas— também beneficia o fluxo de capital e preserva a atratividade das operações de carry trade.

Nessa operação, investidores captam recursos em economias com juros mais baixos, como os Estados Unidos, e aplicam em ativos de países com taxas mais elevadas, como o Brasil, buscando ganhar com o diferencial de juros.

Assim, quanto mais favorável esse diferencial, maior tende a ser o fluxo de dólares para o país, o que contribui para a valorização do real.

Fonte: Folha de S. Paulo