A poeira do chão, que se misturava às fagulhas da fogueira e espiralava o perfume da lenha queimada, recendeu outros sentidos e, carregada nos braços do vento, levou a brincadeira de boi ao colo das tantas famílias que conduziram esse terno brinquedo para além das fronteiras da ilha.
O brinquedo, feito de amor e pano, tornou-se talismã popular que atrai multidões por sua força e arte daqueles que brincam e amam. É arquétipo de sonhos e lutas, é amuleto de revolução de quem fez do brincar a guerra contra tudo aquilo que freia a evolução de um povo; é uma entidade viva onde habitam os desejos, anseios e aspirações de uma gente que resiste contra tudo para sobreviver em uma Amazônia esquecida e disputada por aqueles que tentam destruí-la por poder.
É no desejo de dias melhores que aquela velha armação de cipó e sarrapilha, de olhos tirados dos fundos de garrafas de vidro e coberta pelo couro preto de veludo, que Parintins e seu criativo povo redefiniu seus próprios sentidos, conectando mulheres, homens, crianças e idosos das muitas gerações, bichos, árvores e rios, para tornar-se afago, amparo, remédio, cura, reavivamento, sublimação, ponte, caminho, esperança e tantos outros adjetivos que reverenciam a diversidade e polissemia num único ser, que pertence ao povo e canta seu chão sagrado ao mundo todo.
Afinal, o brinquedo Caprichoso também é canto, arte que ecoa da boca do povo na inteligência, na inventividade, numa alquimia sentimental que faz ecoar as barreiras e ultrapassar a razão, numa catarse apaixonada onde o corpo se entrega para recender a chama viva da paixão. É arte que manipula os sentidos, dando vida ao sonho num canto liberto, gerador de emoção, que faz os olhos transbordarem com o brilho das estrelas em noite junina.
É o chão, organismo vivo, nosso corpo e espírito, que, debaixo de nossos descalços pés, guarda os segredos antigos do mundo e do futuro, nossa terra-floresta, território vivo que, na contramão do tempo, é diariamente atacado pelo falho sistema econômico em que vivemos. Chão da vida, berço sagrado e colo materno de nossa existência.
Esse é o Caprichoso 2026: um brinquedo tecido de sonhos, arma contra o medo, instrumento revolucionário do amor e da arte.
Sobre a Arte
A arte tema Caprichoso 2026 revela o Boi-Bumbá Caprichoso como símbolo maior da tradição do povo de Parintins, coroado por sua estrela azul, símbolo do touro amado.
O Boi, ao centro da arte, aparece cortejado pelo curumim Caprichoso do Palmares, Victor Miguel Costa, expressando a infinitude do brincar de boi. No outro lado, o menino João Mateus Santos Vieira, da tradicional Travessa Cordovil, reduto do Boi Caprichoso e último curral de posse de Luizinho Pereira, brinca nas ruas com seu cavalinho de juta e cipó, trazendo à cena a magia e a inocência da infância que mantém viva a tradição.
No canto superior, o marujeiro Calango sorri, emanando ao mundo a alegria de ser Caprichoso, balanceada no estalar das mesmas palminhas que há mais de 50 anos dão ritmo às toadas do Boi Caprichoso em nossa Marujada de Guerra. Acompanhando o nosso Bumbá, a indígena Ira Maragua emoldura a cena com a cunhantã Iraê, originária, reafirmando nossa ancestralidade e lembrando que dela herdamos os saberes e conhecimentos para construir a brincadeira de boi.
Bandeiras, fitas, estrelas e lanças reluzem, iluminando a riqueza e a emoção da nossa arte tema.
A arte 2026 é idealizada pelo Conselho de Arte do Boi-Bumbá Caprichoso, esboçada pelo conselheiro Rainer Canto e produzida pelos designers João Marco e Paulo Victor Costa, uma criação que traduz, com força e beleza, a tradição, a alegria e a paixão da Nação Azul.
Conselho de Artes do Boi Caprichoso
Fonte: PORTAL PANORAMA PARINTINS