Paula Toller volta aos palcos em turnê com o Kid Abelha e fala sobre etarismo e envelhecimento: 'Estar infeliz com isso é uma briga perdida'

Cantora ainda relembra episódio de assédio vivido em um consultório médico e diz que, em ano de eleição presidencial, não tem vontade de votar em nenhum dos candidatos que estão no páreo

Paula Toller volta aos palcos em turnê com o Kid Abelha e fala sobre etarismo e envelhecimento: 'Estar infeliz com isso é uma briga perdida'
Paula Toller: cantora carioca volta com o Kid Abelha em turnê comemorativa pelo país — Foto: Pedro Loreto

São duas horas ininterruptas de show, com rápidas pausas apenas para a troca de figurino. No palco, Paula Toller surge ao lado de George Israel e Bruno Fortunato em um cenário onírico, no show da turnê “Eu tive um sonho”, reencontro do Kid Abelha que resgata os 35 anos da banda, desfeita em 2016. Com fôlego e energia de menina, a líder do grupo nascido em 1981, década de efervescência do rock brasileiro, e na qual raras eram as mulheres no comando, fez uma preparação de “guerrilha” para rodar as principais capitais do país este ano e embalar hits como “Pintura íntima”, “Fixação” e “Nada por mim”. “É um misto de musculação corporal com musculação vocal, exercícios para a voz duas vezes por dia, todos os dias. Nunca fiz um show de 30 músicas em toda a minha carreira”, diz a cantora de 63 anos. “Além da rotina na academia, alimento-me, durmo e descanso bem, mas em um grau quase de atleta”.

Por que esse reencontro acontece agora?
Percebemos com bastante surpresa que tínhamos um público novo, jovem, principalmente na internet, e isso foi bastante estimulante. Claro, temos ainda muito fãs antigos, mas há algo de renovação, de juntar várias tribos.

Na época, fiquei decepcionada com o papel que me cabia nos videoclipes, o da mocinha sofredora. Custei a perceber que era uma estratégia de marketing. Também me chateava me chamarem de Paulinha, no diminutivo. Discutia, mas depois relaxei. Continuei fazendo o que queria, do meu jeito, melhorando e isso me fez ser vista com mais respeito.

Os anos 1980 foram de muita experimentação e transgressão. Usou drogas?
Experimentei poucas coisas (questionada, Paula não diz quais), mas não a mais maligna de todas, a cocaína. Não gostava da vibe. Às vezes a gente tomava uns porres, mas, em regra, eu virava a noite sóbria.

No meio musical, nunca. Era muito protegida pelos meus colegas de banda. Mas já aconteceu em um consultório médico. O cara tentou me agarrar, e custei a perceber, porque achei que era algum tipo de carinho. Já tinha 30 anos, era casada, soube sair da situação sem traumas.

Sempre que falam seu nome, os comentários sobre sua aparência muito jovial são inevitáveis. isso soa etarista?
Quando é só isso, é chato. As pessoas querem um creme, um segredo, algo para comprar. Tenho muita disciplina, sou cuidadosa, mas não sou viciada em tratamentos estéticos. Já fiz Botox, mas não gostava do resultado e nunca fiz cirurgia plástica. Costumo dizer que tem coisas que não dá para evitar. Sua pele fica mais fina, mais flácida, machuca. Estar infeliz com isso é uma briga perdida.

Você é bastante cuidadosa com a sua imagem. É perfeccionista? Sai sem maquiagem na rua?
É um cuidado, sou assim trabalhando. O que você passa na imagem é uma mensagem, são vários personagens. Uma foto, uma pose, diz mais do que falar muito. E sempre saio sem maquiagem, só me produzo para trabalhar. Às vezes passo um batom, alguma coisinha, e está bom, tenho preguiça.

É um assunto muito delicado e que tem a ver com a mulher em questão, a religião dela, e deveria ser uma escolha pessoal, não do Estado. Não sou contra nem a favor, mas o Estado não pode mandar nisso. Inclusive, gostaria muito de, nesta eleição, ter uma mulher para votar. Não tenho vontade de eleger ninguém. Fico muito triste, porque há mulheres muito interessantes na política, que chamo de transitivas. (questionada, Paula diz que não há nenhuma na corrida leitoral e prefere não citar nomes). Descobri esse termo na psicanálise. Não são de esquerda, nem de direita, nem de centro. Elas conversam com todos e ouvem todo mundo.

Você não fala sobre políticos nem cita candidatos. é muito cobrada por isso?
Sim, é muita patrulha. Sou a favor da liberdade, de fazer o que quiser e não fazer o que não quiser. Gosto de falar de política, mas não de candidatos. Já me confundiram com muita coisa (em 2018, foi associada ao bolsonarismo), que sou isso ou aquilo, quando nunca dei declaração nenhuma. Não quero estar no meio da polarização que existe hoje, é algo muito ruim para o Brasil e para o mundo.

Não. O processo rolou pelo uso indevido da minha obra, da minha imagem no vídeo e da minha voz. Poderia ter autorizado, mas não autorizei, simplesmente isso. Virei essa página.

O quanto a descoberta da diabetes afetou a sua rotina?
Já tinha uma alimentação regrada, mas passei a ter muito mais. Fora a parte ruim, isso foi bom, porque me cuido diariamente. Desacostumei do doce e evito alimentos que podem provocar alguma intoxicação alimentar, como frutos do mar. No mais, uso insulina, meus índices de vitaminas são ótimos.

Você e Lui estão casados há mais de 40 anos. já reviram acordos?
Diariamente. O Lui faz cinema, e quando tem filmagem, some por dois, três meses. E aí, eu trato das coisas domésticas, sem problema nenhum. Na infância do Gabriel, parei de trabalhar por um ano, estávamos sem grana na poupança, tínhamos acabado de comprar nosso apartamento. A gente se virava, e ele cuidou muito do nosso filho. Quanto ao resto, é tradicional. Sou ciumenta, mas não exerço (risos). Não conseguiria ter uma relação aberta de jeito nenhum.

Acho bacana ter várias idades. Nos ensaios para o show, tenho 40; no palco, sinto-me com 20, livre para tudo. E com a Maya, posso ser criança, tenho a idade dela. Ela já fala “vovó”, me reconhece na TV, algo bonito de se ver. É a oportunidade de lembrar como é ver o mundo pela primeira vez.

Por: O Globo