Inteligência artificial cria negócio imobiliário bilionário no Brasil com data centers

Inteligência artificial cria negócio imobiliário bilionário no Brasil com data centers
Progressão das obras do Mega Lobster, data center da Tecto na Praia do Futuro, em Fortaleza-CE - Pedro S. Teixeira/Folhapress

Megainvestidores estrangeiros e nacionais, como Goldman Sachs, BTG Pactual, Patria Investimentos e General Atlantic, estão se posicionando para explorar o boom global de inteligência artificial no Brasil por meio da construção de data centers.

Até 2030, a construção desses complexos vai exigir cerca de US$ 7 trilhões (R$ 39 trilhões) em investimentos para atender à crescente demanda por processamento de informação, segundo uma estimativa da McKinsey, sendo a maior parte disso voltado para inteligência artificial. É uma parcela disso que esses investidores querem abocanhar por meio desses empreendimentos imobiliários.

A ABDC (Associação Brasileira de Data Center), que usa a capacidade instalada do projeto como referência, calcula que os novos complexos devem adicionar 2.000 megawatts à estrutura atual de 800 MW em data centers já construídos no país. Segundo estimativas de mercado, isso vai consumir US$ 20 bilhões (R$ 110 bilhões) em investimentos.

"O Brasil está estreando sua vocação para receber data centers. É o país do mundo com o maior potencial de desenvolvimento de energia renovável que a gente conhece. Tem infraestrutura de maneira bastante desenvolvida", disse Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centers, empresa que tem o Goldman Sachs como investidor, acrescentando que boas relações diplomáticas com EUA, China e Europa também contribuem.

Com base em anúncios ao mercado e pedidos de ligação à rede de eletricidade protocolados junto ao MME, a Folhamapeou os principais projetos em curso —considerando apenas aqueles que já tiveram algum nível de aprovação.

Sete empresas anunciaram projetos acima de 100 MW, o equivalente ao consumo de uma cidade de 1 milhão de habitantes. São elas Scala, Elea, Omnia, Tecto, Aurea, 247 Data Centers e Terranova: todas, em algum nível, estão ligadas a grandes investidores, incluindo bilionárias gestoras de recursos estrangeiras, como Digital Bridge, com US$ 96 bilhões de ativos sob gestão, Actis, investidora de infraestrutura controlada pela General Atlantic, com US$ 108 bilhões.

Em construção na região metropolitana de Fortaleza, o data center da ByteDance, conglomerado chinês por trás do TikTok, será o maior da América Latina, com capacidade instalada de 200 megawatts —um consumo elétrico equivalente ao de uma cidade de 2,1 milhões de habitantes. O projeto vai exigir R$ 200 bilhões em investimentos da companhia chinesa e R$ 12 bilhões do Patria Investimentos.

INCENTIVOS DO GOVERNO

Para executivos do setor, existem dificuldades para se instalar no Brasil, como ligar os data centers à rede elétrica e os impostos cobrados na importação dos supercomputadores. "O custo para investir ainda atrapalha", diz Lombardi, da Elea.

A fim de viabilizar os negócios, executivos das empresas mantiveram nos últimos meses uma agenda de visitas aos ministérios de Minas e Energia, Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e Fazenda.

A Omnia escolheu se instalar em uma zona de processamento de exportação (ZPE), onde não incidem uma série de tributos. A Tecto utiliza um regime especial de tributação.

A esperança do setor recai em uma medida provisória do governo Lula, válida até 25 de fevereiro, que facilita o acesso às vantagens fiscais em todo o país. O governo e o setor produtivo negociam para que esse texto seja aprovado junto com o marco regulatório de inteligência artificial depois do recesso parlamentar, segundo o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), o relator da medida provisória que trata do tema. Com isso, haveria garantia dos benefícios até o fim de 2026.

Os donos de data centers e os fabricantes de supercomputadores, como Nvidia e Google, serão os beneficiários diretos da política de incentivo, chamada Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center).

Além disso, o Redata contempla empresas de energia renovável interessadas em atender gigantes da tecnologia, uma vez que os complexos de processamento de dados estão ligados a um uso intenso de energia.

"Os prédios de tamanho gigawatt [consumo equivalente ao de 10 milhões de brasileiros] aguardam a versão final do Redata para terem sua construção iniciada", disse Lombardi, da Elea.

Por: Folha de São Paulo