71% dos trabalhadores dizem acreditar não ter risco de ficar sem trabalho, mostra Datafolha

Índice é o maior desde março de 2013, quando 75% não viam risco de demissão Levantamento foi realizado em momento em que desemprego está em nível historicamente baixo

71% dos trabalhadores dizem acreditar não ter risco de ficar sem trabalho, mostra Datafolha
Pesquisa Datafolha mostra que 71% dos brasileiros são a favor do fim da escala 6x1 - Gabriel Cabral/Folhapress

Pesquisa Datafolha mostra que 71% dos trabalhadores brasileiros avaliam não correr risco de demissão ou de ficar sem trabalho. Outros 9% dizem ver alguma chance de que isso ocorra, enquanto para 19%, o risco é grande. Os números são os melhores registrados desde 2013.

O levantamento, feito nos dias 12 e 13 de maio, foi realizado em um momento em que a taxa de desocupação —que mede o percentual de pessoas procurando trabalho— está em nível historicamente baixo: cerca de 6%, depois de chegar a quase 15% durante a pandemia de Covid-19.

O percentual dos otimistas —aqueles que não esperam ficar sem trabalho— é maior entre pessoas com 60 anos ou mais (80%) e funcionários públicos (84%). Ele é menor (65%) entre aqueles com renda de até dois salários mínimos (R$ 3.242).

O Datafolha ouviu pessoas que atualmente possuem um trabalho —formal ou não— e fazem parte da PEA (População Economicamente Ativa), como assalariados, autônomos e empresários. Desempregados, aposentados e estudantes, por exemplo, não entram na conta.

Foram 1.312 entrevistados com 16 anos ou mais em 139 municípios em todo o Brasil. A margem de erro para esse dado é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

OTIMISMO RECORDE

O otimismo apontado pela pesquisa está em um dos patamares mais elevados na série histórica do Datafolha. Valores acima da marca de 70% foram verificados anteriormente no segundo governo Lula (2007-2010) e no primeiro governo Dilma Rousseff (2011-2014).

No final desse período, o Brasil entrou na maior recessão da história recente. Na época, o desemprego chegou a quase 14% e permaneceu elevado até 2021. Atualmente, está em 6,1%.

O recorde registrado pelo Datafolha foi de 75% de pessoas que avaliavam não haver risco de ficar sem trabalho, em março de 2013. Na época, o desemprego medido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estava em 8%.

Na última vez em que o instituto fez o mesmo questionamento, em julho de 2019, 58% disseram não correr risco de ser demitidos ou ficar sem trabalho, 25% viam algum risco e 15%, grande risco. Naquele momento, a taxa de desocupação era de 11,9%.

Em outra pergunta sobre o tema feita na mesma pesquisa, 58% dos entrevistados disseram que a possibilidade de ficar sem emprego ou trabalho é uma coisa que não lhes dá medo. Para 21%, é o que mais lhes dá medo. Para 20%, é uma das coisas que desperta esse sentimento. Esses resultados também estão próximos dos patamares vistos de 2010 a 2014.

Na última vez em que o instituto fez o mesmo questionamento, em julho de 2019, 41% disseram que a falta de trabalho era uma coisa que não lhes dava medo. Para 31%, era o que lhes dava mais medo. Para 26%, era uma das coisas que os preocupava.

Atualmente, o percentual dos que estão despreocupados é maior nas faixas de pessoas mais escolarizadas (61%), com 60 anos ou mais (65%) e com renda superior a 10 salários mínimos (75%). O índice é de 50% nas faixas menos escolarizadas, entre pessoas de 16 a 24 anos e no grupo com renda de até dois mínimos.

RENDA E NEGOCIAÇÕES

O baixo desemprego e a sensação de maior disponibilidade de trabalho são fatores que afetam as negociações entre empregadores e empregados em relação a salários e jornada.

Fernando Lima, economista e supervisor técnico do Dieese no estado de São Paulo, afirma que são raros os momentos como esse capturado pela pesquisa. "Geralmente, os trabalhadores têm medo, sim, de perder o emprego", afirma. Ele diz que o dado é parte da explicação para a alta do rendimento do trabalho.

A professora da PUC-Rio Renata Narita afirma que o baixo desemprego é um dos fatores que explicam o resultado da pesquisa em 2026, assim como entre os anos de 2007 e 2014. Ela afirma que provavelmente a chamada "economia gig", ou seja, trabalhadores por aplicativos, como motoristas e entregadores, também tem influência nesse resultado.

"Uma parte dos respondentes já trabalha nesse setor, e eles não têm medo de perder esse emprego, pois a barreira de entrada é muito pequena, mas, além disso, é uma opção externa."

Esse tipo de opção, no entanto, não aumenta o poder de barganha dos trabalhadores para negociar melhores salários, afirma.

A professora da USP Bruna Mirelle Silva Alvarez afirma ser natural o resultado que mostra trabalhadores mais velhos como os mais confiantes. "Quem continua no mercado de trabalho depois dos 60 anos tende a estar em posições relativamente mais estáveis".

Além disso, afirma, são pessoas que muitas vezes possuem a renda do trabalho combinada com uma aposentadoria ou estão na expectativa de se aposentar em breve.

"Mesmo que a pessoa esteja ativa, saber que existe a possibilidade de uma renda de aposentadoria reduz o medo associado à perda do trabalho. Para uma pessoa mais jovem, perder o emprego geralmente significa uma queda imediata na renda da família."

A economista afirma que as percepções captadas pela pesquisa afetam diretamente o consumo, pois quando as pessoas têm menos medo de perder o emprego, tendem a reduzir a poupança por precaução e a consumir mais, especialmente bens duráveis e serviços que envolvem compromisso de renda no futuro, como financiamento de veículos, reforma da casa, cursos, viagens ou compras parceladas.

Apesar dos números positivos do mercado de trabalho, que incluem também o aumento dos rendimentos, uma pesquisa do Datafolha de abril mostrou que quase metade dos brasileiros afirma ter buscado renda alternativa nos últimos meses, com destaque para aqueles que ganham até dois salários mínimos. Ao mesmo tempo, cerca de 60% apontam algum grau de insuficiência de recursos para pagar todas as contas.

Outra pesquisa Datafolha, feita em março, mostrou que 71% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6x1 e a redução da jornada, enquanto 27% são contra a mudança.